Rede de Inovação Tecnológica para Defesa Agropecuária

Fazenda - Muito leite em pequena área

De uma produtividade que não passava de 3 mil litros/ha/ano, há pouco mais de três anos, produtor reajusta projeto e passa a produzir 20 vezes mais leite na mesma área
J. Santos

Só mesmo vendo para crer, no verdadeiro espírito de São Tomé, que numa área de 5 mil m2 um produtor consiga uma produtividade de 61.054 litros de leite/ha/ano, cerca de 70 vezes maior do que a média nacional. E não para por aí: quer passar de 90 mil litros/hectare/ano até o final de 2010. E ainda mais: a um custo de produção bastante baixo e com uma qualidade do leite de fazer inveja a muita gente. Este é o caso do produtor Fábio Jorge Machado, que conta com a ajuda de sua mãe, Cecília, e de sua irmã, Cristiane, nas lidas com as vacas no Sítio Boavista, em Va¬lença-RJ.
Alguém que, antes de 2007, visse a rotina do produtor Fabinho – como é mais conhecido – na lida com suas sete vacas para produzir 5 litros de leite por dia, custaria a acreditar. Na verdade, nem o próprio botaria fé no que conseguiu pouco tempo depois. Para alimentar as vacas, as deixava soltas pelos caminhos, enquanto cortava o capim da beira da estrada e o transportava numa carroça para complementar a dieta do dia. Hoje, com a propriedade repaginada e com vacas mais produtivas e abundância de alimento de qualidade, a média de produção vaca/dia é de 15,3 litros de leite.
A história dessa transformação começou quando Fabinho decidiu, mesmo com certo receio e insegurança, aderir ao Programa de Gerenciamento de Propriedades Leiteira/Balde Cheio, uma parceria entre o Sebrae-RJ, Faerj-Federação da Agricultura do Estado do Rio de Janeiro, Senar-RJ e Embrapa Pecuária Sudeste, voltado à capacitação de técnicos e à orientação de propriedades leiteiras familiares.


Jose Rogério, dona Cecília, Fabinho e Cristiane, do Sítio Boa Vista, em Valença-RJ

“Confesso que fiquei apreensivo, pois o que tinha era tão pouco, que eu não acreditava que pudesse ir para frente naquelas condições. Só depois de visitar algumas unidades demonstrativas do programa, senti brotar uma força de dentro de mim para encarar o desafio. Se outros conseguiram, por que eu também não conseguiria? Era a chance de realizar o sonho de meu falecido pai, de ter uma boa produção de leite, coisa que ele tentara por tantos anos naquela terra, sem alcançar”, relembra ele.
A necessidade de superar a situação de quase penúria da família e enfrentar um grande desafio, sem dispor de recursos para investir, despertou nele o espírito empreendedor. Soube, passo a passo, conforme enfatiza sua irmã Cristiane, imprimir o ritmo das mudanças, ajustando o andar de acordo com o que dispunha. Depois do diagnóstico da propriedade, ele precisava fazer análise do solo, demarcação dos módulos e piquetes, correção com calcário e adubação, de modo a montar a infraestrutura para produzir comida para as vacas.
“E isso tinha de ser feito de acordo com nossos recursos, ou seja, nenhum! Então, era preciso encontrar uma forma de fazer capital para investir”, recorda ele, acrescentando que decidiu vender as vacas e logo em seguida a madeira e “lixos” que tinha na propriedade. Assim, pôde colocar em prática o planejamento que, junto com o técnico José Rogério Moura de Almeida Neto, estabelecera.

FAZENDO NEGÓCIOS E CRIANDO RECEITAS - Mais tarde, ainda precisando de dinheiro, vislumbrou a possibilidade de obter alguns recursos com a venda de mudas de tifton e de cana-de-açúcar. Durante pouco mais de um ano, se dedicou a montar a infraestrutura, implantando a pastagem de tifton, dividida em dois módulos irrigados. O primeiro, com área de 3.150 m2, dividido em 18 piquetes de 175 m2; módulo 2, com 600 m2, dividido em 20 piquetes de 30 m2. A área do canavial, numa encosta do morro, tem 1.800 m2, com duas variedades (RB 84-5257 e RB 86-7515) de alta produtividade, chegando a 200 t por hectare.
Com o sistema de produção de alimento implantado, Fabinho começou a formar o rebanho. Em março de 2008, comprou três vacas e ficou com elas por uns 20 dias e as vendeu por um preço maior. “Foi uma oportunidade de negócio, que rendeu algum lucro”, diz o produtor, acrescentando que comprou duas vacas de maior aptidão leiteira, de modo a explorar o potencial do sistema, com abundância de alimento de alta qualidade.
Em outubro de 2008 adquiriu mais três vacas, e em novembro, mais duas, chegando em dezembro à produção de 90 litros de leite por dia, com sete vacas em lactação. No pico da produção, em julho de 2009, com o pastejo na aveia e azevém, atingiu os 130 litros de leite por dia, com as mesmas sete vacas. O produtor tem conseguido colocar 18 UA/ha, graças à alta produtividade da pastagem de tifton. “Sei que posso chegar e vou chegar à média de 20 UA/ha/ano, pois o pasto está cada vez melhor”, garante o produtor.
Essas boas condições de manejo e alimento de qualidade têm tido reflexos na reprodução. Mesmo com rebanho pequeno, Fabinho emprega inseminação artificial utilizando sêmen de touros com maior potencial para a produção de leite. “Comprei o botijão de sêmen com recursos provenientes do leite”, cita. Por não dispor de espaço, ele não faz cria nem recria. “A reprodução está ‘redonda’, pois nenhuma vaca fica seca por mais de 60 dias”, informa Almeida Neto. As crias são vendidas logo nos primeiros dias, depois de receber o colostro e os cuidados de cura do umbigo. Ele tem obtido um ótimo valor por essas crias.


Entre duas palmeiras, a área de leite produz hoje 61 mil litros/ha/ano

TUDO O QUE INVESTE TEM RETORNO - Para manter o sistema de pastagem com alta produção, faz anualmente análise do solo. Segundo os cálculos do técnico, a adubação em 2009 consistiu em 350 kg de ureia por hectare, mais 6 t de cama de frango, o que custou R$ 1.186. “Considerando o preço médio do leite no período em R$ 0,50, o custo da adubação foi de R$ 0,80 por vaca/dia, correspondente a 1,61 litro de leite/vaca/dia, para ocupação por 210 dias com irrigação”, informa Almeida Ne¬to. O canavial também recebeu uma adubação, com cal¬cário, cloreto de potássio e ureia.
No inverno, em 3.750 m2, fez sobressemeadura com aveia e azevém, tendo um custo (sementes, adubação e energia elétrica, da irrigação) de R$ 247,90, para 90 dias de utilização pelas vacas de maior produção. Isso corres¬pondeu a um custo equivalente a 1,53 litro por vaca/dia (no período recebia R$ 0,60 por litro de leite). “Essa prática deu bons resultados, pois permitiu a redução do concentrado, compensando o investimento”, ressalta o produtor.
Para 2010, Fabinho vai aplicar 30 t de cama de frango por hectare e de adubação química vai usar apenas ureia, uma forma a reduzir o custo da adubação e elevar o potencial de fertilidade do solo. A produção, nos últimos doze meses, está nos 90 litros de leite por dia, com cinco vacas em lactação (duas secas), e permite ao produtor uma sobra de cerca R$ 1.000 por mês. “Nesse período de dois anos, o patrimônio da família de Fabinho pulou dos R$ 20 mil para R$ 60 mil, sem que houvesse significativa valorização da terra na região”, observa Almeida Neto.
Quanto à dieta das vacas, diz que no verão é utilizado pastejo rotacionado e no inverno o rebanho recebe cana-de-açúcar picada, na base de cerca de 35 kg por vaca/dia. As matrizes são separadas em dois lotes, segundo a produção. O primeiro lote, com média de 21 litros, recebe, de manhã e à tarde, 2 kg de polpa cítrica, 50 g de ureia e 150 g de sal mineral. O custo desse alimento, em março de 2010, para as três vacas mais produtivas, foi de R$ 3,90 por vaca/dia. Já o segundo lote, com média de 10 litros, recebe 0,5 kg de polpa cítrica, 150 g de sal mineral, duas vezes ao dia, com o custo de R$ 1,87 por vaca/dia.
O custo alimentar, segundo Almeida Neto, está em R$ 0,18 por litro e o custo total em R$ 0,23, na média dos últimos 12 meses, para um recebimento de R$ 0,59 por litro de leite. “Com tais números nesse período, o fluxo do caixa do Sítio Boavista foi de R$ 12.088, e o lucro, de R$ 9.125”, assinala ele, acrescentando que 56% do faturamento é para pagar o custo operacional.
As vacas em lactação, depois de receberem o concentrado no cocho, seguem para o pastejo em faixa. As mais produtivas entram nos melhores piquetes para fazer o pas¬tejo de pontas, num terço da área do piquete, na parte da manhã. Vão ruminar à sombra e no final da tarde e à noite pastejam o restante da área. Ao saírem do piquete, entram as duas vacas de menor produção e, por fim, o repasse é feito pelas vacas secas. “Com esse tipo de pastejo, as vacas de maior produção se alimentam melhor e consigo reduzir a quantidade de ração para elas, sem quebrar a produção”, explica o produtor.

LEITE DE QUALIDADE COM ORDENHA IMPROVISADA - Para o conforto das vacas, enquanto os seis flamboaiãs – plantados em pontos estratégicos dos módulos de pastagem há pouco mais de um ano – se desenvolvem, o produtor improvisou um sombreamento com folhas de coqueiro e galhos de bambu. Já a qualidade do leite, mesmo numa sala de ordenha de chão batido provisória e ordenha manual, se mostra bastante alta.
Na média dos últimos doze meses, a contagem de células somáticas foi de 152 mil/ml; a contagem bactéria total, 9 mil UFC/ml. Em ambos os itens, quer baixar mais. Em gordura, tem obtido, 4,01%; com proteína, 3,08%. Mesmo não dispondo ainda de instalações adequadas, ele e a irmã seguem rigorosamente todas as recomendações higiênicas durante a ordenha e na limpeza dos equipamentos.
A meta de Fa¬binho para 2010 é comprar mais duas matrizes, totalizan¬do nove, e, com isso, manter a média de 130 litros por dia por todo o ano, alcançando a produtividade desafiadora: 94.300 litros de leite/ha/ano. “É uma marca que jamais sonharia atingir”, admite. Em razão disso, revela que para este ano pretende comprar uma ordenhadeira balde ao pé. Quer também fazer o abaulamento e compac-tação (com a aplicação de calcário) do corredor de passagem das vacas para evitar a formação de excesso de barro. Está nos planos fazer a irrigação do canavial, pois pretende vender uma parte da cana para reforçar a renda da propriedade.
Para Artur Chinelato, coordenador do Projeto Balde Cheio, da Embrapa Pecuária Sudeste, o exemplo de Fabi¬nho é uma prova de que não existe propriedade pequena quando se trata de produzir leite com eficiência. “Qualquer produtor pode participar do jogo. E Fabinho mostra que, com muito trabalho e utilizando a tecnologia adequada, seguindo a orientação técnica, o produtor consegue resultados até inesperados”, diz, acrescentando que tal caso sinaliza muito mais do que a renda maior que ele está obtendo. “Mostra o potencial a que se pode chegar quando se faz a coisa certa”. Outro ponto observado é que o produtor, à medida que domina a tecnologia, vai decidindo por si próprio segundo suas prioridades.


Entre duas palmeiras, a área de leite produz hoje 61 mil litros/ha/ano

Menor propriedade participante do Projeto Balde Cheio, entre as mais de 3 mil, de 370 municípios em 14 estados, o Sítio Boavista é uma das unidades demonstrativas mais visitadas, constando em seu livro mais de 300 assinaturas de produtores, técnicos e estudantes de várias partes do Brasil. Vidal Pedro¬so de Faria, professor da Esalq-Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP, ficou muito entusiasmado com os resultados obtidos pelo produtor Fabinho e até mesmo escreveu um editorial na edição de outubro/2009 de Balde Branco.
Para ele, “o sucesso da atividade não pode ser avaliado somente pela capacidade de planejamento do técnico, lotação elevada por área, qualidade e produtividade dos pastos bem manejados, produção individual de algumas vacas, entusiasmo do proprietário e de seus familiares ou pela simplicidade do sistema implantado. O significado real de propostas tecnológicas realistas e bem fundamentadas aparece quando os dados econômicos são analisados, revelando um fluxo de caixa anual correspondente a R$ 782 por mês, um valor considerável para quem possui recursos limitados e almeja continuar no campo trabalhando na gleba que recebeu de seus pais”.

Mais informações, pelo telefone: (24) 9263-4408;
e-mail: joserogerio.neto@bol.com.br.
Fonte: http://www.baldebranco.com.br/materia2.htm

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Tags: balde cheio, leite, pastejo rotacionado, pequena propriedade, revista Balde Branco

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